Como as gírias da internet criam insiders e outsiders
Você viu em uma rede social ou escutou uma conversa e sentiu que eles estavam falando outro idioma? Se você não sabe o que significa “tankar”, não entende quando alguém leva um “ratio” na web, ou nunca ouviu falar da expressão “cheugy”, você provavelmente já experimentou a sensação de ser um outsider (alguém de fora do grupo) na complexa cultura digital de hoje.
Quando nos deparamos com essas novas palavras, algumas dúvidas surgem. De onde vêm essas palavras? O que significam na prática?
Respondendo à primeira dúvida: a origem de boa parte desses termos está nos videogames e nos memes. O mundo gamer, por exemplo, sempre foi uma fábrica de linguagem própria. É de lá que adotamos verbos como “upar” (subir de nível), “lagar” (quando o jogo trava por má conexão) e o famoso “tankar”. Nos jogos, o “tank” é o personagem resistente que absorve o dano pelos aliados. A internet adaptou a palavra para a vida real: “não tankar” significa não aguentar ou não suportar uma situação, seja ela cômica, absurda ou estressante.
Para quem não faz parte destes grupos ou próximo a eles, fica difícil entender. É aqui que entram os insiders e outsiders. A linguagem sempre funcionou como uma ferramenta de identidade. Quando jovens, gamers, entre outros, criam esses códigos, eles estão desenhando uma fronteira. Usar essas gírias sinaliza para os outros: “eu sou do meio, eu entendo como funciona” (insider). Quem não entende é tido como alguém de fora (outsider). Esse é um mecanismo social de pertencimento e exclusão que encontrou um novo palco no ambiente digital.
Esse fenômeno de quebra de barreiras, porém, não é exclusivo de hoje. Anos atrás, a internet viu outros termos fazerem exatamente essa travessia, saindo das comunidades fechadas de insiders para dominar o vocabulário de quem era outsider. Palavras como “troll” (nascida nos fóruns do início dos anos 2000), “stalkear” (do começo das redes sociais) e “spoiler” (das comunidades de fãs de cinema e séries) eram entendidas por poucos. Hoje, estão nos dicionários, na televisão e até nas conversas de família. O outsider de ontem as absorveu e normalizou.
Um exemplo desse movimento contínuo é o termo “rage bait” (isca de raiva). Originalmente um jargão para descrever conteúdos fabricados propositalmente para irritar usuários e gerar engajamento, a expressão ganhou tamanha força que foi recentemente eleita a palavra do ano pelo Dicionário de Oxford. Quando uma gíria atinge esse nível, o outsider se vê obrigado a aprendê-la, pois ela ultrapassou o nicho e passou a definir o comportamento da sociedade.
Não precisa decorar estas palavras, mas compreender como essas gírias funcionam é uma forma de entender o próprio espírito do nosso tempo. É a língua viva da TEIA.
📖 Pequeno dicionário Insider
Algumas gírias que furaram a bolha:
- Tankar: Originado nos jogos de RPG, onde o “Tank” (tanque) é o jogador que suporta muito dano para proteger a equipe. Na internet, significa aguentar ou suportar uma situação, emoção ou piada.
- Ratio: Do inglês “proporção”. Ocorre quando a resposta a uma publicação tem muito mais curtidas que a postagem original, indicando que a opinião original foi massivamente reprovada.
- Cheugy: Gíria nascida no TikTok usada pela Geração Z para descrever pessoas, roupas ou tendências que estão ultrapassadas ou são cafonas.
- Rage Bait: “Isca de raiva”. É um conteúdo postado propositalmente para deixar as pessoas irritadas, fazendo com que comentem e compartilhem por ódio, gerando engajamento.
- Farmar Aura: Significa cultivar de forma forçada uma pessoa impressionante ou descolada. Une “farmar” (ato gamer de repetir ações para ganhar pontos/recursos) com “aura” (termo do TikTok sobre a energia de quão legal ou constranger uma pessoa é).
- Troll: Nasceu nos antigos fóruns e jogos online para definir quem bagunçava partidas ou discussões apenas pelo prazer de irritar. Hoje, é usado por todos para definir um brincalhão ou provocador.
- Stalkear: Do inglês stalk (perseguir). Começou nas primeiras comunidades online para descrever quem investigava a fundo a vida alheia na internet. Hoje, virou sinônimo de “dar uma espiadinha” nas redes sociais de alguém.
- Spoiler: De spoil (estragar). Começou em fóruns fechados de discussão de tecnologia e cultura pop para alertar sobre revelações do enredo de filmes ou jogos. Hoje, é uma palavra de domínio público.


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